31 de dezembro de 2008

VISÃO PARADOXA DE JANO

Este poema é antigo, compus o mesmo no fim de 2006, quando ainda nem era muito interessado por literatura poética... O poema é inspirado num mito romano, Jano, e foi composto na passagem do ano.

No Dicionário de Símbolos de Chevalier e Gheerbrant Jano é "o Deus ambivalente de dois rostos contrapostos, de origem indo-europeia, um dos deuses mais antigos de Roma. De deus dos deuses, criador bonacheirão, transformou-se em deus das transições e das passagens, assinalando a evolução do passado para o futuro, de um estado a outro, de uma visão a outra, de um universo a outro, deus das portas (...) Guardião das portas, que ele abre e fecha, tem por atributo a varinha do porteiro e a chave. O seu duplo rosto significa que ele vigia tanto as entradas como as saídas, que ele tanto olha para o interior como para o exterior, para direita e para a esquerda, para a frente e para trás, para cima e para baixo, a favor e contra."

Dei o nome de Visão Paradoxa de Jano, pois o mesmo com as suas duas cabeças tem duas visões diferentes... Ele vê o passado e o vê o futuro. Estamos entrando em Janeiro (de Jano)... entrando num novo ciclo da existência.

Mas, a riqueza deste símbolo vai muito mais do que a comemoração de uma data de passagem de ano. Jano pode ser indentificado com o nosso Eu, pois o Eu é um ser que tem duas visões em seu desenvolvimento temporal. E este Eu que vê o passado e o futuro fica além do tempo.

Porém, o poema realmente foi composto para a festa de passagem de ano. Eis os versos:

VISÃO PARADOXA DE JANO

De Jano, neste momento, é meu desejo falar
Guardião dos portões celestes
Com duas cabeças, não cessa de observar
A humanidade em círculo caminhar
Caminho feito pelo ser e não-ser de Cronos

Jano, nos portões da eterna presença
Com a primeira cabeça tudo o que vê
Memórias do passado de tudo o que foi
De fracassos e sucessos da humanidade
Da constante luta para se viver!

Jano, nos portões da eterna presença
Com a segunda cabeça tudo o que vê
Esperanças do futuro de tudo que virá
De fracassos e sucessos da humanidade
Da constante luta para se viver!

Jano, nos portões da eterna presença
Com as duas cabeças pode compreender
O ser que continuamente se torna não-ser
O não-ser que continuamente se torna ser
A sucessiva luta da felicidade com a infelicidade.

Por Constantin Constantius

6 de outubro de 2008

Horas de Grande Tédio


Uma das grandes vantagens de ser um nada de ser
determinado, é poder representar o ser de qualquer coisa... Alienus Amens tinha consciência disto e apesar das condições limitantes impostas às representações de ser, Alienus sabia que nenhuma destas essencializações eram necessárias.

Alienus geralmente representava o papel de alguém que se entediava... assumindo como seus os sentimentos de aborrecimentos e fastios, das longas horas que não passavam, inocupadas d' algo que à alma animava. Outras vezes, apenas imaginava o tédio... observando certas pessoas em suas atividades cotidianas... repititivas... enjoativas ... que aos seus olhos objetivos não faziam muito sentido.

Uma vez observou um vendedor de caldo de cana, que ficava o dia inteiro em sua barraca... sentado ali, entre multidão de gente que ali passava, o dia inteiro, ora triturando a cana e servindo a clientela, ora quieto no silêncio e na solidão da falta de freguesia. E isto dia após dia, mês após mês, ano após ano... Não, isto não era a realidade do homem, que não a sabemos, era sim a idealidade de Alienus, que se imaginou no lugar daquele homem, sozinho ali, nas horas de solidão. Imaginando, sentiu um enorme tédio por antecipação. E esta angústia brotada no solo da idealidade, levou Alienus a escrever mais um poema... um soneto ao Tédio:

Horas de Grande Tédio

Vagarosamente corre o ponteiro a cada hora
Eternamente se temporalizando neste agora
Verbos enfadonhos d'um corpo, d'uma mente
Aborrecimento... entediante... Impertinente

Eis o agora de um momento muito entediante
Importuna incomodamente até o comediante
Um agora, teimoso em não se tornar um antes
Preenchido de cansativos verbos enfastiantes

Fatigados, demoradamente e insistentemente
Advérbios de modos que interminantemente
Exprimem modos de ser mui enfadonhamente

Constantemente se diz: eternamente nada dura
Porém, existe o existente que no tempo perdura
Como o tédio, que somente distração traz a cura.

Alienus então mais uma vez estranhou o resultado... sentiu-se cansado e verdadeiramente com tédio... Ele não entendia como que um sentimento estimulado poderia produzir os mesmos efeitos que os sentimentos espontâneos. Eis aí, Alienus, não sendo em essência um ser entediado, estava no entanto, vivendo um momento assim, pois carregava de modo indeterminado a semente do tédio. Mas, como tudo na existência, este estado de ânimo não duraria para sempre, pois ele de fato não era em essência o ser entediado. Pouco tempo, de um longo tempo, depois, voltou à se distrair com a vida.

Johannes Alienus Amens

2 de outubro de 2008

Flutuação e Precipitação

Alienus Amens, sentado debaixo de uma árvore, numa terra seca e árida do sertão... Sol forte, sombra fresca, calor infernal... Conversando com um outro, o outro de si mesmo, o outro a partir de si mesmo, o outro estranho a si mesmo... Lutando contra o tédio e a inércia da mente e coração, examinando silogismos ascendentes e descendentes da razão, recebeu uma intuição, sim uma inspiração, que lhe arrebatou para um estado oposto, a do coração. Então ele compôs algo estranho, algo parecido a uma canção... não, não era uma canção...eram versos carregados de uma fria e melancólica emoção:

Flutuação e Precipitação

Lentamente flutua a leve pluma
Numa terra distante e gelada
Oculta dos olhos por densa bruma
Carrega crescente pesada geada

Sem um a priori rumo a seguir
Vagueia louca a qualquer direção
Com a necessidade de desmentir
Cada essência da movimentação

Seu movimento revela uma razão
Imprevisível, Indefinível, Inconcebível
Como são os movimentos do coração

Rapidamente precipita-se a pluma
Insustentavelmente, Tragicamente
Oculta dos olhos por densa bruma

Após terminar sua composição, ela não era mais sua... não tinha mais sentido... Alienus Amens loucamente aliena-se de si, olha para si, que não é mais o seu si, mas um estranho a si e então entra em êxtase absurdo e pronuncia com um sisifismo recorrente: "Aller Anfang ist schwer"!

Johannes Alienus Amens

10 de setembro de 2008

O Velho e a Criança - O Alfa e o Ômega

Hoje, quando voltava do almoço, vi uma cena que me impressionou grandemente. Eis que vi um velho e uma criança andando numa rua deserta, sob sol muito forte, protegidos por uma imensa sombrinha. Um velho de cabelos alvos, totalmente alvos. Uma criança pequena com sua pasta de estudos.

O contraste manifestou-se imediatamente à minha consciência. Vi ali o Alfa e o Ômega da Existência Humana. Pólos extremos da vida, assim tão próximos, porém tão distantes. Assim tão semelhantes, mas tão diferentes. Os dois lados de uma mesma moeda, chamada vida!

A percepção desta cena, encheu-me de melancolia, pois olhando de fora, como observador, como aquele que objetiva um objeto, não pude vivenciar toda interioridade daquela relação. Uma relação tão frágil, sob a iminência constante da destruição. O que será que pensava o Velho... O que será que pensava a Criança ... Talvez nada demais, nada demais ... Presos em suas interioridades, nem mesmo imaginam que estou falando isto aqui agora ... Nunca saberão ... Eis aqui a noção da pura Indiferença Existencial...

Enfim, o Velho e a Criança ... o Alfa e o Ômega.

Alienus Amens

15 de agosto de 2008

Claustrofobia da Subjetividade

Sou um claustrofóbico. Sim, tenho pavor de ficar preso em lugares fechados. Lembro quando criança, numa brincadeira junto com meus primos, quando minha tia trancou-me dentro de uma geladeira velha. Era uma brincadeira, mas para mim foi apavorante. A sensação de pânico invade o ser. Toda racionalidade dissipa-se do pensamento. A imaginação prevalece. A angústia faz-me sofrer antecipadamente pela falta de ar. O ser quer literalmente explodir. Experimentar a claustrofobia é como estar no Tártaro, fazendo companhia a Tântalo, Ixíon e Sísifo. Pois é um sofrer sem morrer.

Mas, posso dizer que experimento outro tipo de claustrofobia. A claustrofobia da subjetividade. Só a sinto quando apercebo-me de que vivo numa prisão, de todas as prisões a mais hermética: a prisão da subjetividade. A subjetividade é uma prisão hermeticamente hermética. Não há qualquer possibilidade de passagem de ar. Não há portas. Não há janelas. Não há orifícios. Suas paredes são extremamente e puramente e perfeitamente sólidas. Imaginar isto causa claustrofobia existencial.

Todo homem nasce dentro dela e dela jamais pode sair. Ela é transparente, feita de vidros. Graças a isto pode-se ter uma visão objetiva. Isto é paradoxal. Mas, a transparência da subjetividade permite ver o que há do lado de fora. Não do lado de fora de si mesmo, mas o exterior do outro que aparece dentro da própria subjetividade: o fora dentro de si. O subjetivo compreende e abarca o objetivo. O homem vê aquilo que está além da prisão, porém raras vezes apercebe-se que está preso dentro de si mesmo.

A objetividade é uma ilusão. Tudo quanto está ao meu redor é visto pelas vidraças da subjetividade. Experimento o mundo e as pessoas, ora pela percepção, ora pela imaginação e ora pela concepção. Mas, sempre pela subjetividade, tudo passa pelo crivo do Cogito, do Eu Penso. As paredes de vidro indicam apenas a transcendência do mundo.

Assisti um filme de Todd Field, Little Children, onde ele consegue captar bem o sentido destas prisões. E nada melhor para perceber o quanto o homem é preso em sua própria subjetividade do que observá-lo de "fora", com uma visão "objetiva", colocando-se como um personagem onipresente observando o passado, presente e futuro do outro. E vendo o quanto a imaginação e a fantasia do homem determina-lhe o seu comportamento. Na subjetividade o homem imagina uma realidade vendo então caracteres ilusórios naquilo e naqueles com quem se relaciona. É, é mais fácil ver a ilusão alheia do que a própria. Mas, não seria a idéia de observador uma mera ilusão?

Então, quando apercebo-me de minha prisão subjetiva, já não sei mais o que é real e o que é imaginação. E deter a atenção muito tempo nisto, causa-me claustrofobia existencial. Estou preso em minha própria subjetividade. Isto sufoca-me. Como distinguir a realidade da fantasia ... Platão usou a alegoria da caverna, dela se pode sair. Mas da prisão hermética, sem portas e janelas, quem poderá sair?

Johannes Climacus!

1 de agosto de 2008

Filósofo: Um Midas com o Toque da Razão

Conta-se uma lenda, entre os gregos antigos, de um rei, chamado Midas, que agradou por seus gestos de caridade o deus Baco. Midas havia acolhido e cuidado de Sileno, que segundo os poetas, foi mestre e pai de criação desta divindade. Baco, por meio de Sileno, concedeu-lhe realizar um desejo de sua escolha, qualquer um que fosse. Midas não hesitou e logo pediu que lhe fosse concedido o poder de transformar em ouro tudo o que ele tocasse com a mão. Mesmo reconhecendo a tolice do pedido, Sileno atendeu-lhe.

Midas tocou um ramo de árvore e este transformou-se em ouro. Ficou feliz e entusiasmado, voltando-se para o palácio, tocou as portas e estas também se tornaram em ouro. E assim, ele foi transformando tudo o que tocava. E gostou muito disto. Porém, sentiu fome e ao pegar um pedaço de carne, o mesmo também, tornou-se ouro, o mesmo aconteceu com o vinho e a taça que ele segurava. Infeliz, teve que voltar atrás e pedir para que o poder lhe fosse tirado, pois caso contrário ele iria morrer de fome.

Midas, Midas! De uma alegria extrema para uma situação infeliz! Eis o que acontece também com o Filósofo, que eu diria ser um tipo de Rei Midas, que em vez de transformar em ouro as coisas que toca, transforma em essências tudo aquilo que pensa. Eis o toque da razão, o toque que transforma a existência em essência, que transforma o subjetivo em objetivo, o todo em dualidade de sujeito e objeto.

Há coisas que pensadas em suas essências trazem grandes benefícios, como acontece por exemplo no pensar abstrato da matemática. Porém, quando se procura transformar em essências aquilo que só faz sentido na existência, o filósofo morre de inanição de experiência. Na vida do homem as coisas da existência vem antes das essências e por isto não se pode querer racionalizá-las. O prazer de comer um pedaço de carne, o prazer de experimentar uma sensação no corpo, o prazer do beijo, o prazer de ouvir uma música, e tantas outras coisas, só podem ser vividas e compreendidas na existência. Se o Filósofo as toca com a razão, elas se transformam em algo diferente e perdem seus efeitos, assim como Midas fazia ao tocar um alimento, que transformado em ouro, não poderia mais, satisfazê-lo.

Ah, a imagem do Filósofo é a imagem de um homem feliz que conseguiu o poder de transformar em essência tudo o que tocava com a razão. Porém, descobriu que transformar todos os mitos e as experiências da vida em explicações racionais não lhe pode fazer feliz. Eis a condição da existência humana, não há como sobreviver sendo apenas filósofo. E como canta Zé Ramalho:


"Foi um tempo que o tempo não esquece
Que os trovões eram roucos de se ouvir
Todo um céu começou a se abrir
Numa fenda de fogo que aparece
O poeta inicia sua prece
Ponteando em cordas e lamentos
Escrevendo seus novos mandamentos
Na fronteira de um mundo alucinado
Cavalgando em martelo agalopado
E viajando com loucos pensamentos

...

Pode ser que ninguém me compreenda
Quando digo que sou visionário
Pode a Bíblia ser um dicionário
Pode tudo ser uma refazenda
Mas a mente talvez não me atenda
Se eu quiser novamente retornar
Para um mundo de leis me obrigar
A lutar pelo erro do engano
Eu prefiro um galope soberano
A loucura do mundo me entregar"

Johannes Climacus

18 de julho de 2008

Parque de Diversões e o Absurdo da Existência

Faz dias que vejo sempre, no trajeto para meu trabalho, um parque de diversões. E de tanto ver, este se impôs à minha consciência de modo que passei a refletir sobre.

Parque de Diversões! Observei pessoas sentadas em aparelhos giratórios, balanços enormes, rodas gigantes, etc. Por um momento senti o absurdo da existência humana e parece que ali, no parque, havia uma lente que fazia o absurdo manifestar-se de modo muito maior aos olhos.

Aquelas pessoas sentadas em aparelhos, girando e girando, andando em círculos, várias voltas, voltas absurdas, voltas sem sentido, movimentando-se em círculos totalmente sem razão de ser. E pior ainda, voltas gratuitamente inúteis, que não acrescentam nada a mais na existência, que em si, é também desprovida de um rumo e sentido necessário.

Tudo isto vi do ponto de vista da análise de um observador, lógico-racional objetivador e essencializador. Porém, depois de observar vários dias este absurdo, hoje foi diferente, deixei minha imaginação fluir. Imaginei cada volta, imaginei-me ali, de cabeça para baixo, imaginei-me ali dentro, naquelas máquinas que caminham em círculos, naquela rotina eterna sem sentido. E pude perceber que aquilo poderia trazer um prazer, um extâse, um extravasar de emoção...

É absurdo para quem vê de fora, mas o que vive e experimenta parece ser de tal modo anestesiado pela distração a ponto de esquecer o absurdo que é ficar girando sem rumo, girando no mesmo lugar, girando inutilmente a fim de sentir emoções, a fim de tornar a existência absurda em algo com um sentido de prazer. Sim, é ilusão, pensarmos que o sentido que damos para nossa existência é um real sentido. Pois realmente, não há sentido algum. Dar sentido para a existência já significa que não existe sentido algum.

Ahhh! Acho que domingo vou ao parque de diversões .... Only Time!

Johannes Climacus!

13 de junho de 2008

A Beleza Particular e a Beleza Geral

Estava analisando meus sentimentos estéticos e percebi algo interessante, um pouco que constante em meus juízos estéticos: a distinção entre a beleza particular, individual e a beleza geral, coletiva.

Digamos, vou numa loja de sapatos, vejo inúmeros sapatos juntos, aquela visão é esplendorosa, enche de gozo os nossos sentidos. É preciso escolher um. É preciso saber qual daqueles será o sapato que mais agradou. Depois de muita dúvida, então escolhe-se um, que se julga belo. Quando aquele um é tirado do meio dos outros sapatos, ele de alguma forma perde a beleza e o encanto.

Outro exemplo, digamos que exista um grupo com sete mulheres, três super formosas, lindas, jovens, sorridentes. Outras duas nem tão formosas e não tão inestéticas. E por fim, duas que estão desprovidas de uma beleza natural, conforme os padrões sociais. Não importa, todas elas tornam-se belas, o conjunto de todas elas causam um impacto muito forte no juízo estético. Até mesmos as não tão belas, tornam-se belas. Porém, mesmo a mais bela das sete, vista isoladamente perde todo esplendor da beleza.

E assim, parece ser com tudo. Tudo o que isolamos, mesmo que seja muito belo, parece perder o efeito.

Bom, é assim, que tem funcionado meus juízos estéticos. De modo que parece ser impossível amar o belo particularmente de modo absoluto, ou seja, como amar somente uma coisa? Se cada ente particular traz em si uma beleza singular? Beleza esta que é realçada na generalidade? Ah, mais também como alguém finito pode amar tudo?

Penso ser este um dos maiores paradoxos estéticos do amor.

Oráculo

Em um beco escuro da Sé...a cara, certamente tinha mais maquiagem do que misticismo...começou me olhando com aquele olhar vulgar, de quem finge observar profundamente...deu mais um trago no cigarro:

- Então, vc é a Nil?

- É...pq? Sua bola de cristal tá quebrada hj?

(...pôs o cigarro de lado, sorriu)

- ..Não adivinho nomes, adivinho o futuro..

- Hum...e oq vê pra mim?

- Um portal mágico...

- Vc tá me achando com cara de idiota? (embora, eu mesma já estivesse me achando uma idiota por estar ali..)

- .Não não.. sua hostilidade transpira pelos seus póros...calma garota...olha, é engraçado alguém acreditar em cartomante, e não acreditar em portais mágicos...

- Bom...deve ser pq já vi trocentas cartomantes..mas, nunca vi um portal mágico...tudo bem, reconheço que acho besta acreditar que vc possa me dizer algo de útil....mas, sei lá, somos cheios de esperanças estúpidas o tempo todo...explica aí a história da porra do portal...

- To falando do portal mágico da insanidade...que sempre esteve aberto pra você...tô vendo aqui que ele vai se fechar...e logo..

- .... O portal vai se fechar...sim, faz muito sentido..(ia me levantando da cadeira, puta por perder dez contos com aquilo)

- Sente-se Nil!...(soou tão imperativo, que quase automaticamente, me sentei...mas, a verdadeira razão de haver me sentado, estava oculta diante disso..eu queria, precisava ficar...e ouvir até o final)...

- Sabemos bem do que estou falando...chegou o momento de decidir, se vc vai adentrar ou não...

De repente, em meio à fumaça do cigarro, abriu-se um portal enorme em minha frente...já não havia mais cartomante, nem sé, baralho ou bola de cristal...tremi...por um instante, foi como se incoscientemente, meu corpo estivesse sendo puxado pela fumaça......puxado...e cada vez mais intensamente...

...............

Acordei naquele corpo estranho....traguei amargamente o cigarro manchado com meu batom vermelho... e pedi que entrasse a próxima cliente....

Nil Resende.

A impossibilidade da repetição na realidade

O texto abaixo é um depoimento de um amigo meu, que admiro muito, João Batista, sobre um texto que eu tinha escrito, que nem mais sei se existe. Pesquisando no Google sobre Kierkegaard, acabei encontrando este depoimento, feito algum tempo atrás, quando utilizava o pseudônimo Johannes de Silentio:


"Caríssimo Johannes de Silentio (João do Silêncio), você, nesta sua belíssima e competentíssima repetição imanente, e recorrente, inclusive na pseudonímia, nos oferece um pequeno texto de Kierkegaard, onde o filósofo dinamarquês (e quero aqui deixar claro que dele conheço apenas o superficial, portanto, desde logo, sugiro que releve a minha incompetência) desenvolve um discurso já traçado desde os seus primórdios, desde o relacionamento com o seu pai, que fora talvez(?) o seu maior ídolo, e onde acredito esteja a fonte antropológica do pensamento kierkegaardiano, mas que ao mesmo tempo construíra no jovem Sören Aabye Kirkegaard marca indelével: a “melancolia”, o “fracasso” e, por fim o seu “calvário”. Em razão disso e em função do meu pouco conhecimento a respeito deste filósofo, penso (e isto em mim é uma convicção) ser imprescindível entendê-lo “somente” a partir dessa tríade dialógica da repetição da realidade de si. Sendo, pois, este, um conceito “exageradamente pessoal”, não merecerá, portanto, de você, assim espero, que é um estudioso de Kirkegaard, uma crítica severa sem antes entender essa minha limitação.

Curiosamente a obra de Kirkegaard surge sob o manto de indagações pessoais que buscavam um tipo de significado de “idéia de apropriação”. Veja, por exemplo, sua afirmação: “Trata-se de encontrar uma verdade que seja verdade para mim, de encontrar a idéia pela qual quero viver e morrer” (Papier, I, A, p. 75). Suas principais indagações eram: “Como assumir um cristianismo herdado do pai “melancólico”? Como superar os resíduos existenciais de um noivado fracassado? Como compreender o sofrimento como um bem para o indivíduo?”. Finalmente ele sintetiza todas essas hipóteses numa única: “Como compreender-se na existência?”.

Acredito, assim, que toda a estrutura do pensamento filosófico do dinamarquês se finda nesta síntese. Mas é interessante perceber que é a partir desta síntese que Kirkegaard desenvolve, sobretudo com “Climacus”, em “O Conceito de Ironia Constantemente referido a Sócrates”, todo um conjunto ideográfico da ironia que o perseguirá enunciando [repetições imanentes] em toda sua obra, isto é, construindo e desconstruíndo repetições dentro da dualidade dialógica do ser possível e impossível dentro de uma repetição da realidade de si e do ser-aí. Não seria isso, pois, uma terrível ironia de possbilidades e impossibilidades de realidades latentes e dadas? Não sei bem explicar isso, confesso-o humildemente, mas penso que sim, a partir do impacto que me causa todo o pensamento de Kirkegaard.

Agrada-me contudo tentar entendê-lo, tomando como referência o texto por você mencionado, a partir da consciência ou conscientização da existência do real ou da realidade, onde se revelaria a dupla ironia do interior “X” exterior ou da subjetividade “X” objetividade. A isso, Kierkegaard, destacou como sendo um verdadeiro “salto” para o confronto ou a confrontação, num contraste evidente ao pensamento hegeliano de “mediação”. Ou seja: a realidade consciente ou a consciência da realidade só ocorre no instante do confronto, que, para o filósofo, era a total libertação, a “escada para o paraíso”, e tudo isso dentro de um método onde o fora e o dentro se interrelacionam num processo de constante mutualidade imanente.

Finalizando: quero crer que Kierkegaard, e assim o entendo, sugere que todo ato de consciência é um ato de revolução ou um estádio revolucionário, de confronto evidente, sem o qual não há espaço para o “salto”, isto é para a libertação. (Neste ponto vejo um determinado tipo de proximidade com o pensamento de Marx, o que não vem ao caso neste momento). Isto significaria dizer que ao tomar consciência de uma realidade externa crio uma nova realidade interna que vai naturalmente levar ao confronto e, de alguma maneira, dar um “salto” em direção à liberdade, que pode ocorrer no exterior ou no interior, no subjetivo ou na objetividade. A essa teorematização representacional tento definir como sendo uma metalinguagem da existência.

E para definitivamente terminar esta minha intervenção deixo aqui uma pergunta múltipla multifacetada no contexto irônico do próprio Kierkegaard:

- Não seria você, juntamente com sua pseudonímia, a consciente repetição da realidade do pensamento de Kierkegaard? Não estariam, aí, instaladas, tanto a possibilidade quanto a impossibilidade dessa existência recorrente ou repetitiva do pensamento kierkegaardiano? Não seria isso uma tipologia de conscientização, e de confronto, para dar um salto para uma tipologia de libertação, para tentar assenhorear-se de uma tipologia de propriedade de conhecimentos e de saberes?"

Publicado no Blog de João Batista

26 de maio de 2008

Estudos Filosóficos:

Coletânea de artigos filosóficos de autoria de vários filósofos do Orkut. Artigos sem necessidade de coerência entre si – multiplicidade de interpretações acerca da Filosofia.

Organizador: Alexandre Anello

Capa: Waldísio Araújo

Prefácio: Ernesto Von Rückert.

Temas abordados/(autores):
1. Mito e Filosofia – a evolução do pensamento (Alexandre Anello)
2. Alienações e sua gênese em Karl Marx (Marco Aurélio Machado)
3. A sentinela da contradição – Marx e a crítica social contemporânea (Cláudio Duarte)
4. Existencialismo (Constantin Constantius)
5. Jean-Paul Sartre (Sávio Notarangeli)
6. Escola de Frankfurt – recortes históricos e filosóficos (Felipe Figueira)
7. A esperança nas ruínas – dialética de esperança e pessimismo na Escola de Frankfurt (Cláudio Duarte)
8. Ludwig Wittgenstein (Yedra Ardey)
9. Angústia e tédio – Doença ou Liberdade – Uma abordagem das tonalidades afetivas no pensamento de Heidegger (Fernando Lopes)
10. Friedrich Nietzsche – vida e obra (Erick Gaspar)
11. Michel Foucault (Carolina Schouer)
12. Nascimento e morte de Deus (Waldísio Araújo)
13. Aforismos (Alexandre Anello)

Participaram também as poetisas e os poetas:
1. Ernesto Von Rückert;
2. Angélica;
3. Mariah Lacerda;
4. João Lins;
5. Athina Sr. B.;
6. Laura Antunes;
7. Bruno Coelho;
8. Luiz Carlos (Luizsefer);
9. Carla Laforgia;
10. Manoel Nogueira Silva;
11. Alexandre Anello.

Para baixar o livro, clique aqui:

Para baixar a capa do livro 3D, em formato papel de parede, clique aqui:

Favor divulgar o link para download, para centralizar-se a contagem de downloads.

Mais uma vez, obrigado a todos!

Alexandre Anello

25 de março de 2008

A Leveza das Palavras

Palavras! Palavras! Eis o que é a Palavra, o logos eterno encarnado, materializado, substancializado. Palavras: expressões de uma realidade invisível que estão além do tempo-espaço e ao mesmo tempo tão estritamente ligada a isto. Palavras: a matéria usada pelo Demiurgo, o homem, para criar a partir das formas intemporais, as coisas temporais. Mas, ah que pena! Esta criação não é perfeita.

Diante da realidade, do ser que foi, do ser que é o que é, do ser-em-si, as palavras assumem uma determinada leveza. Uma leveza tal que as mesmas começam a se desprender desta realidade e começam então a flutuar. Flutuar para além da realidade, a ponto de se tornarem elas mesmas outra realidade, uma realidade distinta, uma cópia distorcida de algo ao qual elas estavam originalmente ligadas. Tornam-se também seres-em-si. Toda palavra nasce ligada a uma realidade, porém imediatamente corta-se o cordão umbilical, e estas tornam-se tão independentes, que a própria realidade de onde nasceram fica longe delas.

Pois então, as palavras são leves! Além disto, além de leves, também são ilusórias. Posso dizer o que quiser. Dizem que o papel aceita tudo. Hoje, em dia, seriam os papeis virtuais. E como é fácil multiplicar as palavras. É extremamente fácil julgar, fazer predicação entre idéias. Ah, mas quão vazias são as palavras da realidade.

Confesso, estou cansado de tantas palavras. Estou cansado de minhas próprias palavras. Elas não conseguem dizer nada, são leves, são ilusórias, desprendem-se de mim, tem vida própria, deixam de ser minhas palavras, para serem apenas palavras em si. São totalmente desnecessárias. Ah, parece que vivemos soterrados de lixos e entulhos verborrágicos! Não importa se seja o simples "olá", "boa tarde" ou o mais sofisticado discurso retórico, estamos cercados de palavras vazias, e nós mesmos vivemos a expelir estas palavras, poluindo mais ainda o que nós humanos chamamos O Mundo das Letras.

Constantin Constantius!

28 de agosto de 2007

Belas Poesias e Pinturas de Pietkra

Estou publicando neste tópico algumas poesias e algumas telas de uma amiga que conheci no Orkut, Pietkra Tebesco, apreciem:

********************
Se negra não fosse a noite,
Talvez eu percebesse
Que o sorriso era riso,
Deboche!,
Por ver vitoriosas
Tuas falsas palavras.

Se negra ela não fosse,
Por detrás do brilho dos seus olhos
Eu veria intenso prazer,
Por doentia intenção,
Pôr-me em cárcere profundo.


Pietkra.

********************
Sei das dores desta cidade,
Das minhas,
O que tentei por ambas,
Das que padece o homem que amo...

Sei de casos,
Que não foram por acaso,
Há culpados!
As consequências,
Me pedem intervir,
E você, o homem que amo,
Alguns fatos,
Te entristece o olhar.

Sei de uma dor neste planeta,
Que me pede por ser humana,
Intensa como a saudade,
De peito que me aconchega,
O do homem que amo.

Sei de bandeiras
Que tremulam frêmitos de revoltas
Que sangram,
O descaso da ausência de atitudes,
Que fazem a miséria
E humilhações de povos
Que fizeram filhos,
E resigno-me ante escravidão
Por junto,
Que o homem que amo,
Fez grilhões.
E,por eles,
Ele me tranca tão fundo,
Que nem mesmo nos seus olhos
Eu sou presença.


Pietkra.

********************
Gostaria ter um cantinho,
Onde houvesse uma orquídea branca
Num tronco de árvore,
Ao sol,
Um botão amarelo.

Que meus pés tocassem a terra,
Uma porteira a bater,
Um som de cascos no chão.

Que as pessoas que ali fossem,
Chegassem sem preconceitos
E me mostrasse, nos olhos,
Uma alma limpa,
E que minhas lágrimas
fossem apenas por amor
Ou por emoção.

Sentada à soleira,
Ouvindo o borbulhar
Do caldeirão de feijão
Se misturar ao crepitar
Da madeira no fogo.

O olhar ao longe,
E como que num quebra cabeça,
Tirar-te, aos poucos,
Do por do sol.

E,
Presença formada,
Você se faria em andar,
Em boca,
Em olhos,
Em cheiro,em amor, em mãos.

Mãos que trouxessem
A ternura de toques,
O afago da presença.


Pietkra.

********************
Tenho a fibra
E a raça de mulheres fortes,
A vida mo tem mostrado.
Só não sei
Se poderei sustentar seu olhar,
Mostrar no meu
A dor de nó passado,
Que à ti me ata.

Me cobro
E me preparo por forças
Pra assisti-lo feliz,
Que por feliz,
Sei,
Não contas comigo.

Com você,
À cada dia me faço mais forte
Pra não te mostrar tristeza
Pelo pacto de amor que fiz com você,
E você,
Fez com outra.


Pietkra.

********************
Você me faz mais que sensual,
Mais que felina.
Me faz em cio,
Com consciência mental disforme,
Corpo em hipnose,
Arrepios, profecia,
Transe-ação.

O desejo paira,
E busco no seu corpo
As sagradas atitudes
De ser possuída.

Te engulo lobo,
Fogo, energia,
Forte.

Impulso ensandecido,
Movimentos hábeis de dono
E leveza,
Que por final
Me faz dócil,
Vê-lo ir-se,
Sair alteza,
E confiar pra que,
Como hoje,
Você se repita.


Pietkra.

15 de agosto de 2007

Eu, Pescador de Ilusões

Eu, Pescador de Ilusões

Arte e Literatura de Valor Intelectual e Filosófico

Johannes de Silentio (*)


Kierkegaard certa vez escreveu que "o poeta é o gênio da recordação". E ele tinha razão. Isto faz do poeta um elemento fundamental num grupo social, que tem uma valiosa missão: registrar para as gerações presentes e futuras, através de sua arte: os sentimentos, as idéias e os fatos mais relevantes de seu contexto histórico específico. Não é uma tarefa fácil, exige não somente a técnica, mas acima de tudo, uma habilidade natural, uma vocação. O poeta louva e elogia o belo, porém da mesma forma censura e critica o inestético.


E nesta atividade do poeta é preciso liberdade de expressão, pois caso contrário sua tarefa se torna irrelevante. Sempre digo: o poeta é censor do clima intelectual e sentimental de seu tempo. E aqui temos um poeta brasileiro contemporâneo: João Batista do Lago com o seu primeiro e esperamos não último livro de poesias – EU, PESCADOR DE ILUSÕES.


Com certeza as Musas, filhas do senhor do Olimpo, inspiradoras das artes, auxiliaram este autor a transformar a matéria bruta das intuições sensíveis e intelectuais em formas preciosas de expressão poética. É uma obra que consiste numa coletânea de poesias, que nasceram numa fértil imaginação e que expressam uma grande variedade de sentimentos e reflexões. Exibem uma riqueza de palavras e idéias de ótima qualidade. Encantam com a beleza da forma e do estilo literário. Impressionam com a profundidade semântica dos conceitos trabalhados. Cativam com a relevância histórica política e social.


Esta obra é fruto de uma mente genial e brilhante e que demonstra ser amante do saber. É uma obra plena de ideais nobres e humanitários, que fecundam não na mente de um jovem inexperiente e ingênuo, mas ao contrário, na mente de um “ancião”, que fluiu existencialmente na história por vários momentos antagônicos.


Nesta obra é importante destacar o empenho intelectual de compreender o mundo percebido não como uma representação idealista, estática e alienada do tempo-espaço natural, mas pelo contrário, seguindo o exemplo pioneiro de Heráclito, uma tentativa de compreender o mundo numa representação realista e dinâmica.


Percebe-se um elemento dialético, às vezes paradoxal, no movimento das palavras, neste fluir poético, que expressa um pensamento vivo e interessante. Poesias que procuram expressar adequadamente a realidade histórica e natural em constante movimento. São pensamentos que não pretendem ser a expressão de uma realidade eterna e distante, mas sim, o retrato de uma realidade viva e experimentada, em todas as suas contradições.


O poeta João Batista do Lago, cidadão consciente e culto, nesta sua obra, expressa e reflete sobre variados temas. Com isto demonstra aptidão e conhecimento em várias áreas do conhecer humano: Filosofia, Arte, Antropologia, Sociologia, Mitologia, Literatura, Política, História, Ecologia e outras mais.


Evidencia portanto não só a qualidade intelectual da obra, mas também a própria erudição do autor. Deste modo a obra não se limita somente a satisfazer o gosto estético do leitor, mas procura satisfazer também o gosto intelectual e às vezes apela até mesmo à volição.


A obra não consiste somente numa coletânea de poesias com o fim de satisfazer o desejo pelo belo. Objetiva também a reflexão sobre a própria atividade reflexiva do homem, revelando seus potenciais e suas limitações, numa perspectiva dialética. Expressa o sentimento de finitude do homem, um ser que questiona o infinito e que busca respostas para questões transcendentes à própria existência natural.


João Batista do Lago é um poeta, e nesta obra não só louva e celebra o belo, mas censura os abusos políticos, nacionais e internacionais, testemunhados pela nossa história contemporânea. Poesias que denunciam atos desumanos dos que estão no poder. É um poeta que incita a indignação. Censura por exemplo: a corrupção política, a exploração do pobre pelo mais rico, os agentes da injustiça social, a cumplicidade das instituições que preservam e reproduzem ideologias, a atividade tecnológica do homem que destrói a natureza. Poesias que até mesmo profetizam libertação social e fazem apelo à ação.


Concluindo, "EU, PESCADOR DE ILUSÕES" é uma bela obra de arte, mas também, uma peça literária de valor intelectual e filosófico muito grande. Uma obra que exige, portanto, um tempo razoável de reflexão, pois toca em temas complexos e profundos da existência humana. É uma obra relevante para o homem contemporâneo, pois fala do que aconteceu e acontece aqui e agora. Será também uma obra de relevância histórica, retratando o sentimento e pensamento de um cidadão culto, que no seu tempo refletiu criticamente a história política e social.


(*) Johannes de Silentio (ou Paulo Sérgio Alves) - Formação acadêmica em Teologia e Processamento de Dados. Atua como Profissional Liberal.
28 de Novembro de 2006.


Baixe esta obra neste link: http://www.lulu.com/content/633006






14 de junho de 2007

A crença na imortalidade como motivação ética em Dostoiévski*

*Este artigo foi escrito em resposta a um questionamento de uma amiga, Samila Moreira, no Orkut. Nosso diálogo era sobre o tema da existência de normas morais absolutas e universais. A mesma escreveu, também, um artigo sobre o assunto, no seu blog pessoal.


Ninguém poderá negar que na vida social existe injustiça. Existe imoralidade. Existe maldade. E esta maldade que reina no lugar da justiça nem sempre é punida, muitos dos crimes são feitos sem que ninguém fique sabendo. Voltaire diz que: "Desde que os que os homens começaram a viver em sociedade devem ter percebido que não poucos criminosos escapavam à severidade das leis. Puniam-se os crimes públicos: restava estabelecer um freio para os crimes secretos. Só a religião poderia ser esse freio. Persas, caldeus, egípcios, gregos, imaginaram castigos depois da morte." (VOLTAIRE, p. 304).


As normas jurídicas distinguem-se das outras normas sociais por terem em si o poder de coercibilidade. E o que seria destas normas sem este poder? Ora, seriam irrelevantes. Mas, e o que dizer das normas morais? Tem elas algum valor sem a coercibilidade? Ora, julgo que não. Muitas das normas sociais não estão sob o poder da coerção do Estado. E o objetivo deste artigo, portanto, é argumentar a relação entre a imortalidade e a moralidade, procurando mostrar que Dostoiévski estava certo ao afirmar que sem "imortalidade não existe virtude", ou seja, que a obediência a uma norma moral não é absolutamente obrigatória se não se pode apelar para uma punição ou recompensa absoluta.


Dostoiévski, em sua obra Irmãos Karamazov, ficou famoso por expressar esta frase "não pode haver virtude sem imortalidade" (DOSTOIÉVSKI, p. 76). Na voz do personagem Piotr Alieksándrovitch citando uma conversa de um outro personagem, Ivã Fiódorovitch, um ateu teórico, lemos o seguinte: "ele (Ivã) declarou solenemente, no meio de uma discussão, que sobre a terra nada existe que possa obrigar um homem a amar seus semelhantes, que isto não é absolutamente uma lei natural; e, se tal amor existiu até agora, foi apenas em razão da crença dos homens na imortalidade." (DOSTOIÉVSKI, p. 75).


Outro personagem, Rakítin, questiona: "Ouvi há pouco a sua estúpida teoria: 'Não existe imortalidade da alma; por conseguinte, não há virtude e tudo é permitido'". E logo depois diz: "Toda esta teoria é uma baixeza. A humanidade achará força em si mesma, viverá para a virtude mesmo que não creia na imortalidade da alma! Achará essa força no amor à liberdade, à igualdade, à fraternidade." (DOSTOIÉVSKI, p. 88).


Bom, o que Rakítin disse tem certo sentido, pois a moral pode ser construída sem a idéia de imortalidade, porém seria uma moral ineficiente em todos os casos. Mas, quem leu todo o livro perceberá a moral do romance dos Irmãos Karamazov em seu desfecho final, que ilustra que a justiça humana é falha, que inocentes são punidos e criminosos são tidos como pessoas de bem. E que muitas injustiças nunca são punidas. E nestes casos, se não há imortalidade da alma o injustiçado não será vingado e o impune não será castigado.


Este pensamento não é inédito em Dostoiévski. Citamos no início Voltaire, e o que ele diz é verossímil. Basta fazer um estudo sobre os costumes, religião e moral dos povos antigos que se constatará que a idéia de imortalidade está ligada à moralidade.


Não há como negar que na vida muitos cometem maldades sem que estas maldades sejam punidas. Poderíamos ilustrar isto com vários exemplos. Muitos dos grandes empresários de nosso tempo foram pessoas que cometeram muitas injustiças para se tornarem o que são. O político pobre e honesto não consegue competir numa eleição com o corrupto e rico. E aquele que assume para si a obra de outrem e leva toda vantagem nisto. Muitos dos que são louvados na sociedade são pessoas más e injustas, isto não há como negar. E o aluno que copia o trabalho de outro e se sai bem? Sem falar nos enganos, tramas mentirosas e subornos?


Encontra-se esta relação entre justiça e imortalidade nos mitos gregos. Na mitologia grega atribui-se às Fúrias o poder de executar as sentenças dos Juízes. Ministros da vingança dos deuses existem desde a origem do mundo. São elas a Tisífone, Megera e Aleto. Quando alguém ficava impune de seus erros diziam que elas os perseguiam. É uma alusão mítica ao poder da consciência moral humana. Sem falar da famosa deusa da vingança Nêmesis.


A escatologia (estudo das últimas coisas) Cristã também evidencia a relação entre justiça divina e moralidade. A idéia de Reinos dos Céus, Inferno e Juízo Final são provas disto. E a imortalidade cristã está vinculada à crença na ressurreição, que quando foi negada por alguns cristãos na igreja de Corinto levou o apóstolo São Paulo a dizer: "Se a nossa esperança em Cristo se limita somente a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens" (1Co 15: 19) e "se, como homem, lutei em Éfeso com feras, que me aproveita isso? Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, que amanhã morreremos. (1Co. 15:32).


Na filosofia, Sócrates, um dos gênios da moralidade, evidencia que para ele a questão da virtude está associada à imortalidade. O mesmo foi condenado injustamente. Antes de ser executado teve oportunidade de fugir da prisão com a ajuda de seus amigos. Porém, recusou a proposta dizendo que não se deve pagar o mal com o mal, ou seja, não se deve agir de modo injusto por que sofreu uma injustiça, visto que ao se fazer isto se age contra as Leis da própria República. E agir contra esta é como ajudar a destruí-la e não se deve destruir aquilo que foi a condição de toda a sua própria existência. Sem falar que agindo de forma injusta não haveria como reivindicar de modo semelhante a justiça, invalidando o próprio discurso moral. No final, Sócrates diz que no Hades, lugar para onde irão as almas, ele teria que prestar contas aos juízes. Por isto diz "não coloques teus filhos, nem tua vida nem nada deste mundo em lugar mais elevado do que é justo, para que, ao chegares ao inferno, tenhas com que defender-te diante dos juízes." (PLATÃO, p. 113).


Noutro diálogo platônico encontramos algo mais decisivo sobre a motivação de Sócrates em viver uma vida virtuosa, a motivação de preferir morrer por uma injustiça do que viver por meio de uma injustiça. Em Fédon, Sócrates diz que o verdadeiro filósofo não deve temer a morte, pelo contrário, deve ansiar por ela, visto que sua vida consiste em lutar contra as paixões do corpo para dedicar-se ao conhecimento da verdade, que só pode ser obtido pela alma, pois o corpo é na verdade um obstáculo a este objetivo. Sócrates então diz a razão de não lamentar morrer: "se eu não cresse encontrar na outra vida deuses bons e sábios e homens melhores que os daqui, seria inconcebível não lamentar morrer. Sabei, no entanto, que espero juntar-me a homens justos e deuses muito bons. Eis por que não me aflijo com a minha morte; morrerei tendo a esperança de que existe alguma coisa depois desta vida e de que, de acordo com a antiga tradição, os bons serão mais bem tratados que os maus." (PLATÃO, p. 123-124).


Logo adiante, Sócrates fala que "a verdadeira virtude é uma purificação de todas as paixões. O comedimento, a justiça, a força e a própria sabedoria são purificações, e é muito claro que aqueles que estabeleceram as iniciações místicas não eram personagens desprezíveis, mas sim grandes gênios que, desde os primórdios, desejaram nos fazer compreender sob esses enigmas que aquele que for ao Hades sem ser iniciado e purificado será jogado na lama, e que aquele que chegar após as expiações, purificado e iniciado, será recebido entre os deuses." (PLATÃO, p. 131). Aqui Sócrates mostra a dependência da prática da virtude com a crença na imortalidade da alma. Logo após ouvir isto Cebes diz: "Sócrates, tudo o que acabas de dizer me parece correto. Só há uma coisa que será inacreditável para os homens: o que disseste a respeito da alma." (PLATÃO, p. 131). Cebes então exige provas da imortalidade da alma o que Sócrates apresenta até o final do diálogo.


Ora, é fato a existência de códigos morais que prescrevem deveres, estabelecem leis, ditam normas, que os membros de uma determinada sociedade estão obrigados a observar. Estes códigos prescrevem o que é e não permitido. Porém, em si, estes códigos são ineficazes sem o poder da coerção ou da punição.


Uma das condições necessárias para o agir moral é a liberdade. Sem esta o agir moral não faz sentido. E o discurso moral não passaria de um amontoado de palavras vazias de significado. A idéia de liberdade do agir moral faz com que as leis morais sejam diferentes das leis físicas do universo. E para isto é importante distinguir dois conceitos, o de necessidade e o de obrigação. Às vezes se confunde o uso dos dois, o que não é bom. As leis físicas naturais não são obedecidas, visto que elas, ordinariamente, regem eventos de modo necessário, ou seja, que não podem ser diferentes do que são. Enquanto, diante das leis morais é possível um curso de ação diferente ao que prescreve a norma. Por isto não se obedece a leis físicas naturais, mas sim leis morais. Para evitar esta confusão os alemães empregam duas palavras, sollen para obrigação e müssen para necessidade. Millan Kundera investiga em Insustentável Leveza do Ser as ações humanas do ponto de vista do müssen e não do sollen, quando pergunta o que é realmente müssen?


A idéia de obrigação é essencial ao agir moral, pois se não se obrigado obedecer a determinada norma porque então criar problemas por causa disto? Ora, não faz sentido, discutir e polemizar algo a que não se tem obrigação de obedecer. Seria mais um capricho irracional do que o um problema filosófico racional. Mas, o que é uma obrigação? Ora, obrigação é definida como o caráter "coercitivo, conferido a uma relação interpessoal por lei jurídica ou por norma moral. Esse caráter é diferente da necessidade, segundo a qual é impossível que a coisa seja ou aconteça de modo diferente: a obrigação não impede que a relação de fato, por ela regida, se configure de modo diferente, mas implica, neste caso, a intervenção de uma sanção. Algumas vezes o caráter obrigatório da relação se expressa com a necessidade moral ou ideal, sem que com isto se pretenda reduzi-lo à necessidade propriamente dita." (ABBAGANANO, p. 725)


Ora, percebe-se que obedecer a uma lei moral não faz sentido sem a idéia de obrigação, mas esta última, também, não faz sentido sem a idéia de sanção, seja ela jurídica seja ela moral. Se não se é, de alguma forma, coibido a obedecer a uma norma moral, porque motivo alguém iria fazer isto? Ainda mais, quando se pode levar algum tipo de vantagem irreversível no não obedecer a uma norma? Porque não mentir quando se pode mentir sem sofrer castigo e ao mesmo tempo recebendo vários benefícios? Alguém iria dizer para estar em paz com a consciência. Bom, mas quantos estão em paz com a consciência vivendo uma vida de injustiça? Alguns têm suas consciências insensíveis de tanto ir contra ela.


Na vida social obedecem-se várias normas morais. Mas por quê? Ora, porque a não obediência pode trazer consequências punitivas. Porém, quando se é possível ir contra as leis morais sem sofrer punição, por qual motivo se deveria obedecer as mesmas? Bom, aqui não se poderia apresentar nenhum motivo necessário para isto. Alguém obedece a uma norma moral ou porque é de seu próprio interesse ou para evitar sanções. Porém, quando não há interesse e não há sanções, e pelo contrário quando é do interesse não obedecer e não se corre o risco de sanções então a pessoa sente-se à vontade para desobedecer.


Uma norma moral sem o poder de punição é uma norma sem muita utilidade. A sociedade tem vários meios de censura e sanção, mas a justiça social é falha, está sujeita ao juízo enganoso e muitos atos podem ser feitos em secreto. Pode-se usar da mentira e engano para encobertar algum erro ou algum mal. Assim, vê-se pessoas que são moralmente corretas recebendo censuras e sanções morais de modo injusto por causa de difamações e calúnias. E vê-se pessoas moralmente incorretas recebendo louvores no lugar dos bons.


Diante desta imperfeição do julgamento moral da sociedade cito as palavras de Qohelet, pensando judeu: "Vi ainda todas as opressões que se fazem debaixo do sol: eis as lágrimas dos que foram oprimidos, sem que ninguém os consolasse; vi a violência na mão dos opressores, sem que ninguém os consolasse" (Ec. 4:1). E então ele diz: "Vi ainda debaixo do sol que no lugar do juízo reinava a maldade, e no lugar da justiça, maldade ainda. Então disse comigo: Deus julgará o justo e o perverso; pois há tempo para todo propósito e para toda obra." (Ec. 3:16-17). Mas, sem Deus e sem imortalidade, como pode alguém dizer que o bom será inevitavelmente recompensado e o mau, punido? Ora, não é possível. O romance de Dostoiévski ilustra algo que acontece constantemente, o inocente pagando pelo mal de outrem, que agiu de modo esperto e oportunista. Justamente porque este último não crendo na existência da imortalidade julga tudo permitido, uma vez que no final, na vida terrena, não será punido por causa das limitações do juízo humano.


Não se pode falar de uma obrigação absoluta quando não há uma recompensa e punição de valor absoluto. Ora, se as punições e recompensas são relativas às condições históricas da ação, então, são estas condições que vão determinar se é ou não aconselhável obedecer uma norma.


O problema é também do discurso ético, visto que a ação é contingente (pode ser ou não ser) e só assume valor de necessidade em relação ao que "deve ser", ou seja, a relação entre o que se deve fazer e o que se fará, não é uma relação lógica mediada por leis de uma razão suficiente. Não se pode raciocinar assim: O homem é um ser que deve valorizar a vida humana; Sócrates é um homem; Logo, Sócrates deve valorizar a vida humana. Disto não segue que Sócrates de fato valoriza a vida humana, pois de fato, ele pode não valorizar. A liberdade de Sócrates pressupõe um elemento de indeterminação lógica em relação ao que sua razão diz que ele deve fazer e o que ele realmente faz. Ele pode não agir de acordo com o que sua razão diz que deve fazer. Seria um salto lógico dizer: Logo, Sócrates valoriza a vida humana. Existe um ponto de descontinuação entre o "dever-ser" moral e o "ser". Este ponto é a liberdade.


Concluindo, concordo com Dostoiévski, de que sem a crença na imortalidade, com sua idéia de recompensa e punição na vida pós-morte, tudo é permitido dentro das conveniências sociais e que ninguém é obrigado a fazer o bem ao próximo quando isto não for conveniente. Pois as leis morais não são como as leis físicas naturais, pois podem ser desobedecidas e, em algumas circunstâncias, sem consequências punitivas. E quando nestas circunstâncias pode-se agir em prol de interesses particulares, muitos dizem para si mesmos: tudo me é permitido, portanto farei aquilo que me for conveniente, mesmo que isto seja imoral e venha a prejudicar a vida de outrem. É claro que estas violações são feitas em segredo, e em muitas das vezes, a pessoa que agiu imoralmente, em lugar de ser punida é ainda recompensada.


Constantin Constantius!


BIBLIOGRAFIA


ABBAGNAMO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

ARISTÓTELES. Arte Retórica e Arte Poética. Rio de Janeiro: Ediouro, s/data.

BÍBLIA SAGRADA. Versão ARA. São Paulo: SBB, 1999.

DOSTOIÉVSKI. Os Irmãos Karamazov. São Paulo: Ed. Martin Claret, 2005.

LALANDE, André. Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

MONDIN, B. Introdução à Filosofia. São Paulo: Ed. Paulus, 1980.

PLATÃO, Col. Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2000.

PUGLIESI, M. Mitologia Grego-Romana. São Paulo: Ed. Madras, 2003.

VOLTAIRE. Dicionário Filosófico. São Paulo: Martin Claret, 2003.

16 de abril de 2007

Aleph: Símbolo do Ser, em seu aspecto Essencial e Existencial

O símbolo é um elemento essencial para expressar o pensamento mítico-religioso, que é o pensamento existencial mediado por meio da fé. No entanto, não deixa de ter valor significativo para expressar, também, o pensamento lógico-racional-filosófico. É instrumento valioso para expressar, de modo simples e sintético, um determinado conceito complexo e de difícil compreensão. E pode-se dizer que encontrar um símbolo adequado à um conceito, constitui-se uma verdadeira arte. Na busca por um símbolo que expresse bem meu pensamento filosófico, encontrei um perfeito, a letra hebraica Aleph (alef). Mas, antes de explicar o significado simbólico desta letra com meu pensamento, é mister contextualizar historicamente o significado místico-religioso deste símbolo dentro da tradição judaica-cristã.

O alfabeto hebraico não é apenas um conjunto de letras de um sistema lingüístico, é também, uma fonte de ricos significados simbólicos. Este alfabeto contém somente consoantes. Os sinais vocálicos não são representados, embora os massoretas tenham criado um sistema de pontuação para sinalizar a vocalização das palavras, chamados de sinais massoréticos. O hebraico foi o idioma em que foi escrito o Velho Testamento Cristão, que corresponde à Torah do Judaísmo. É composto por 22 letras e cada uma delas têm vários significados simbólicos de natureza mítica-religiosa na tradição mística judaico-cristã. Quem mais explorou o significado destas letras foi a Cabala, seita esotérica, que existe tanto em versão judaica como cristã.

O alfabeto hebraico pertence a uma língua muito antiga, e por isto suas letras foram primordialmente grafadas por figuras gráficas associadas com objetos concretos. Com o passar do tempo as letras foram tomando formas próprias e assumindo um significado mais abstrato e particularmente fonético, em suas versões modernas.

Pois bem, Aleph é a primeira letra do alfabeto. Esta letra não tem som, e é usada para sinalizar a presença de uma vocalização sem consoante, visto que não há letras para os sons vocálicos, no hebraico. Primordialmente aleph era grafada com o desenho da cabeça de um touro, significando "força", "poder" ou "liderança". Muitas palavras hebraicas podem ser bem compreendidas semanticamente à luz do estudo pictográfico. Um exemplo, de como aleph tem um significado concreto associado à suas primeiras formas, é a famosa palavra "Aba" que significa "Pai", que em hebraico é formada pelas letras "aleph" e "bêt" (transliterada pela letra "b"). Esta última era grafada de modo pictográfico como uma figura de uma tenda, ou seja, de uma casa. O significado então de "Aba" à luz da pictografia é "cabeça da casa" ou "chefe do lar". A grafia desta letra passou por várias evoluções. As grafias, da primeira letra do alfabeto grego (alfa) e do latino e do numeral um (1), têm suas origens em uma das formas de Aleph.



Porém, além do sentido pictográfico do alfabeto hebraico, existe o significado mítico-religioso, associado à forma moderna do alfabeto. Neste último sentido, Aleph recebeu significados ricos de conteúdo religioso. E neste sentido, para entender o significado da letra aleph, primeiramente é necessário entender a constituição e forma moderna em que a letra é grafada. Aleph é uma das três letras mães, formada por pela combinação de duas outras letras simples do alfabeto. É, portanto, formado por um vav em diagonal (sexta letra do alfabeto, cujo sinal pictográfico é um tipo de gancho ou "clipe" para ligar as coisas) e por dois yod (décima letra do alfabeto - cujo sinal pictográfico é um braço com uma mão), um superior e outro inferior ao vav. Na gramática hebraica o vav funciona, também, como conjunção de inclusão, a conjunção "e". Na literatura cabalística o vav conceitua "o poder de conectar e correlacionar todos os elementos dentro da Criação". Já o yod é uma pequena letra, presente de certa forma na grafia de todas as outras letras do hebraico moderno, e por isto é considerada a base de todas elas.

Qual o significado do arranjo destas letras? Bom com o yod superior significa-se o aspecto escondido de Javé e com o yod inferior, a sua revelação à humanidade. O traço diagonal que é um vav (letra que é uma conjunção em hebraico) funciona como ligação entre as duas realidades: a realidade divina oculta e a realidade divina revelada ao homem. Embora, o segmento religioso que mais explora estes significados são as seitas esotéricas da Cabala, pode-se dizer que do ponto de vista Teísta Monoteísta Judaico-Cristão, o vav diagonal seria a ligação entre a realidade transcendental de Deus e a realidade imanente de Deus.



A guematria, estudo dos significados numéricos das letras do alfabeto hebraico, atribui ao Aleph o número um, e portanto, esta letra indica a Singularidade Divina, idéia monoteísta de um único Deus. Este significado é reforçado, pois a soma dos valores numéricos das letras que compõem Aleph é 26, pois um yod vale dez e um vav, seis, como são dois yods, então, a soma total é 26, o mesmo valor numérico do tetragrama sagrado judeu, formado pelas letras yod, hey, vav, hey, que transliterado fica YHVH (cf. Êxodo 3:14-15), donde deriva o nome Javé, que em grego é traduzido por Theos, Deus. A guematria, então indica a ligação entre a letra Aleph e o Deus em Si Mesmo.



Aleph, não tem som, é uma letra silenciosa. Por isto existe uma fábula que explica porque Aleph não foi escolhida a primeira letra da Torah. Na estória, todas as letras se apresentam, diante de Deus, para dar razões do porque deveriam ser a primeira letra, exceto a letra Aleph. Quando o Senhor perguntou o porque disto, Aleph explicou a razão de ter ficado em silêncio: ela não tinha nada a dizer. Mas o Senhor honrou a humildade de Aleph e designou-a como a primeira de todas as letras, sendo a primeira do alfabeto. E, também, a honrou como a letra da primeira palavra dos Dez Mandamentos.

O Rabi Dov Ber explica as primeiras palavras da Torah: "Bereschit Bara Elohim Et" (No princípio Deus Criou "et") conforme Gênesis 1:1. Gramaticalmente, a palavra "et" é intraduzível e é usada para indicar que a próxima palavra é um objeto direto definido, que portanto, no texto liga a ação criadora de Deus tanto dos céus como da terra. Mas, Dov Ber aponta para um significado simbólico no relato da criação, explicando o porque desta palavra "et", que é formada por um aleph e um tav, que são respectivamente a primeira e a última letra do alfabeto hebraico, e por esta razão é sinônimo de todo o alfabeto. Então, o Rabino argumenta que no princípio Deus criou o Alfabeto, antes dos céus e da terra. As letras são consideradas como os blocos de construção primordiais de toda a criação. Outro rabino, Shneur Zalman, afirmou que se as letras deixarem de existir por um instante, toda a criação tornaria absolutamente insignificante. Percebe-se que para os judeus as palavras tinham um significado muito importante. O texto cristão de João 1 relaciona a criação com a Palavra, que é Cristo, o Verbo de Deus.

Aleph é, também, interpretada como uma figura messiânica, pois é composta tanto de uma realidade superior celestial, como de uma realidade inferior terrena, ligadas pela humildade de um corpo. Aleph é a figura da Unidade do Deus-Homem que é o Messias ou Cristo. Do ponto de vista messiânico, Aleph representa Yeshua, o Messias, intercessor da humanidade. Os dois Yods representam os braços abertos estendidos alcançando tanto a humanidade quanto a Deus.

As seitas esotéricas do tipo cabalístico atribuem vários outros significados ao Aleph e demais letras do alfabeto hebraico. Uma curiosidade é que esta letra, Aleph, foi reinterpretada por Georg Cantor, um matemático famoso, criador da teoria dos números transfinitos, que influenciado por todo o mistério místico religioso judaico desta letra, atribui um novo significado, usando a mesma para representar o número que corresponde à soma de todos os números inteiros positivos, que por sinal é uma grandeza infinita.

Por tudo isto, julguei Aleph um símbolo ideal para expressar de modo sintético meu pensamento ontológico-filosófico. Minha ontologia considera o Ser, como Uno e Eterno. Ser de modo geral representa a Realidade Total. Faço distinção de duas esferas no Ser: a Essência, esfera da idealidade imaterial atemporal (eterna) e a Existência, esfera da realidade material temporal. O todo real é uma combinação entre idealidade e realidade, ou seja, essência e existência. Porém, a síntese destas duas esferas é feita no Eu Penso Transcendental que por meio da sensibilidade apreende a existência e por meio do entendimento apreende a essência. Como o Ser é Eterno, pois é impossível que o Ser Absoluto tivesse sua origem no Não-Ser absoluto, então todos os entes temporais, existem essencialmente de modo eterno no Ser, como possibilidades ideais.



Pretendo esclarecer com mais clareza o significado destes termos: Ser, Essência, Existência e Eu Penso. Utilizo-me como base conceitual a terminologia de Descartes, John Lock, Kant e Sartre conforme o uso que faz destes termos em suas obras. Porém, muito importante, também é o pensamento de Kierkegaard que distingue a realidade da idealidade e a relação destas duas esferas do Ser na consciência humana. Para Kierkegaard, o homem é "síntese de infinito e de finito, de temporal e de eterno, de liberdade e de necessidade." O homem é uma síntese e portanto é a relação entre dois termos. Esquema este que pode ser, perfeitamente, adaptado dentro da simbologia de Aleph.

Concluindo, Aleph é o símbolo que expressa o meu atual pensamento ontológico-filosófico. Porém, é apenas um símbolo, nada mais do que isto. Enfim, não tem o poder mágico atribuído pelas seitas esotéricas de cunho cabalístico. No mais, com o tempo irei aperfeiçoando minha análise e explicitando melhor minhas idéias.

Constantin Constantius!

Goiânia